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Solenia BackstageEdição 03 · JUL 2026

Duo Hotel Brasil, ou como não esconder a costura entre dois sons diferentes

Nascido do fim da banda Florida Cup, o duo formado por Fábio Galiani e Luciano Simioni resolveu o problema de juntar MPB e indie do mesmo jeito que compôs "Notre Dame Pt. I e II": deixando a diferença aparecer.

Foto: divulgação / Duo Hotel Brasil

Duo Hotel Brasil nasce de um fim. Fábio Galiani vinha da Florida Cup, banda que carregava uma raiz de MPB; quando o projeto se encerra, ele não abandona esse legado: muda de rota. Entra em cena Luciano Simioni, com uma trajetória solo construída sobre indie rock, e os dois formam uma dupla com uma divisão de papéis pouco comum: Galiani assume voz e trompete; Simioni cobre guitarra, baixo, violão e violino, alternando o instrumento conforme a música pede, além de controlar as trilhas de apoio ao vivo.

O briefing implícito de um projeto assim não é trivial: como juntar duas identidades sonoras formadas em lugares diferentes (a MPB que vem de uma banda que já não existe mais, e o indie de uma carreira solo) sem que uma dissolva a outra, e sem fingir que a diferença não existe? A saída mais fácil, e mais comum, seria “limar” as arestas: escolher um denominador comum e produzir tudo em cima dele, apagando a origem de cada metade.

O Duo Hotel Brasil fez o oposto. Em vez de esconder a costura entre MPB e indie, o duo constrói a identidade em cima dela: a autenticidade como norte não significa som limpo e uniforme, significa deixar as duas raízes reconhecíveis dentro da mesma música. Essa lógica fica mais explícita ainda em “Notre Dame”, faixa dividida em duas partes que tratam da mesma ideia (a memória, o modo como a lembrança se apresenta) mas cada parte com compasso, cadência e instrumentação totalmente distintos. Não é uma música com um interlúdio; são dois blocos sonoros que soam quase como duas composições diferentes, e que só fazem sentido como uma coisa só porque tratam do mesmo tema por ângulos diferentes.

Essa não é uma solução de compromisso, é a resposta certa pro problema que a dupla se colocou: lembrança não é uma experiência uniforme: ela muda de textura dependendo da distância no tempo, do que se escolhe (ou não) lembrar direito. Uma música sobre memória que tentasse manter um único compasso do início ao fim estaria, na prática, mentindo sobre como a memória de fato funciona. A fragmentação de “Notre Dame Pt. I e II” não é falha de coesão, é a forma da música imitando o próprio assunto dela.

A mesma lógica aparece na decisão de relançar “Encontros e Desencontros” (um trabalho já existente, herdado da Florida Cup) ao lado do material inédito. Em vez de tratar o catálogo antigo como capítulo encerrado, o duo o reapresenta como parte viva da identidade atual: uma escolha que ecoa direto no ângulo do Lab Estético desta mesma edição: relançar o passado ao lado do novo é, também aqui, uma forma de perguntar o que continua sendo a mesma banda através da mudança.

O resultado é um projeto que não pede desculpas por vir de dois lugares: assume os dois, ao mesmo tempo, como parte do mesmo corpo.

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