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Perfil Criativo10 JUL 2026

JAOVAMP. Condenado a ser livre.

Integrante do Lado Beco, ele estreia projeto solo em 14 de agosto como espaço pra um tipo de música que o coletivo não tinha lugar pra guardar

Revista CatarsePerfil CriativoPessoas e trajetórias

Antes de existir como projeto solo, JAOVAMP já ocupava um espaço definido dentro do Lado Beco, banda de Maringá que mistura rap, rock e crítica social. Ao lado de Coutinn, Mateus e Gabriel, construiu uma identidade artística coletiva. O trabalho solo, porém, nasce da necessidade de explorar outra linguagem, mais íntima, onde determinadas composições pudessem existir sem as negociações naturais de um projeto compartilhado.

Esse movimento de autonomia não aparece apenas na trajetória do artista. Ele também atravessa o primeiro single.

Pré-save

À primeira vista, a música pode ser interpretada como um rompimento com uma figura controladora. Mas sua força está em outro lugar: ela questiona o conforto de entregar a própria liberdade nas mãos de alguém. Quando o narrador afirma “Eu não vou me sujeitar” e, mais adiante, “Eu não preciso de você”, a recusa não representa apenas o fim de uma relação. Ela marca o instante em que alguém decide voltar a ser responsável pela própria existência.

Essa leitura aproxima a canção de uma das ideias centrais do filósofo francês Jean-Paul Sartre. Em O Existencialismo é um Humanismo (1946), Sartre afirma que o ser humano está “condenado a ser livre”. A frase parece contraditória, mas sintetiza um dos pilares do existencialismo: ninguém escolhe nascer, porém, uma vez lançado ao mundo, não pode escapar da responsabilidade por suas escolhas. Mesmo quando decidimos não decidir, já estamos escolhendo.

Para Sartre, essa liberdade costuma produzir angústia. Escolher significa abandonar a segurança das certezas e aceitar que não existe uma autoridade capaz de garantir que estamos fazendo a coisa certa. Por isso, muitas vezes buscamos alguém que decida por nós seja uma instituição, uma tradição, uma crença ou até mesmo outra pessoa. Transferir a responsabilidade pode aliviar temporariamente o peso da liberdade, mas tem um custo: aos poucos, abrimos mão da autoria da própria vida.

É justamente esse mecanismo que a letra parece confrontar. A repetição de versos como “Eu não vou me sujeitar” transforma a música em uma recusa à terceirização das escolhas. Quando o narrador afirma “A dependência que existe aqui não vem de mim, vem de você”, ele rompe uma dinâmica em que obedecer deixava de ser apenas uma atitude e passava a funcionar como uma forma de evitar o peso de decidir por si mesmo. A ruptura, nesse sentido, não é apenas afetiva; é existencial.

A psicologia oferece uma leitura complementar para esse processo. O psicanalista Donald Winnicott descreveu o amadurecimento como o desenvolvimento do verdadeiro self: a capacidade de agir a partir das próprias experiências, e não apenas das expectativas impostas pelo ambiente. Em relações marcadas pelo controle, é comum que o indivíduo passe a organizar suas escolhas em função da aprovação do outro. Recuperar a autonomia significa, antes de tudo, reconstruir essa identidade. Sob essa perspectiva, dizer “Eu não preciso de você” não é apenas afastar alguém; é recuperar a capacidade de decidir quem se é.

Essa interpretação também dialoga, ainda que por outro caminho, com o conceito de servidão voluntária, formulado por Étienne de La Boétie no século XVI. Em seu Discurso da Servidão Voluntária, o filósofo argumenta que o poder não se mantém apenas pela força, mas também porque os próprios indivíduos acabam sustentando, por hábito, medo ou conveniência, as estruturas que os dominam. Se La Boétie investiga por que continuamos obedecendo, Sartre pergunta o que acontece quando finalmente aceitamos o risco de sermos livres. A música parece existir exatamente nesse ponto de transição: o momento em que obedecer deixa de oferecer conforto e a liberdade passa a exigir responsabilidade.

Curiosamente, o próprio nascimento de JAOVAMP como artista solo espelha essa reflexão. Sair de um espaço coletivo para construir uma linguagem própria também significa assumir integralmente as escolhas criativas, sem dividir responsabilidades ou atribuir decisões ao grupo. A liberdade artística, assim como a liberdade existencial, amplia possibilidades, mas também elimina os lugares onde antes era possível esconder a autoria das decisões.

Com lançamento marcado para 14 de agosto de 2026, o primeiro single inaugura esse percurso. Mais do que apresentar uma nova sonoridade, a canção propõe uma reflexão sobre um dos dilemas centrais da existência humana: ser livre nunca foi apenas um direito. Talvez seja, antes de tudo, uma responsabilidade da qual ninguém consegue escapar.

Editoria Revista Catarse | Solenia Records | 2026

Também publicado na Substack da Revista Catarse.

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