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Perfil Criativo11 JUL 2026

VIPERINE e a filosofia do estrangeiro

porque permanecer deslocado pode ser um ato de resistência

Revista CatarsePerfil CriativoPessoas e trajetórias

A primeira impressão de Lost é a de uma música sobre alguém perdido.

Mas talvez ela fale justamente do contrário.

Ao longo da faixa, VIPERINE constrói a figura de alguém que se percebe como um “imigrante” não apenas no sentido territorial, mas existencial. É alguém que atravessa ambientes sem nunca pertencer completamente a eles, que precisa provar constantemente seu valor e que encontra na própria diferença uma forma de resistência.

Essa ideia dialoga diretamente com o sociólogo alemão Georg Simmel (1858–1918), considerado um dos fundadores da sociologia moderna e um dos primeiros intelectuais a estudar como as relações humanas são transformadas pela vida urbana. Em seu ensaio O Estrangeiro (Der Fremde), publicado em 1908, Simmel propõe uma definição bastante diferente da ideia comum de estrangeiro.

Para ele, o estrangeiro não é apenas quem vem de outro país.

É aquele que participa de uma comunidade sem jamais ser completamente absorvido por ela.

Ele está perto o suficiente para compreender suas regras, mas distante o bastante para não ser moldado completamente por elas.

Essa posição produz um paradoxo interessante: justamente por não pertencer totalmente, o estrangeiro enxerga aquilo que os membros do grupo já naturalizaram. Sua distância se transforma em capacidade crítica.

É exatamente essa posição que VIPERINE ocupa em Lost.

A personagem da música não busca aceitação.

Ela observa o sistema de fora.

E justamente por permanecer nessa posição consegue enxergar aquilo que, para quem já está completamente integrado, deixou de ser percebido.

A padronização como forma de pertencimento

Essa condição de estrangeira explica também um dos momentos mais contundentes da faixa, quando a artista critica uma sociedade em que “todos são iguais”.
À primeira vista, a frase parece apenas uma crítica estética.
Mas ela dialoga com um fenômeno muito maior.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, professor da Universidade de Berlim e um dos pensadores mais influentes da filosofia contemporânea, dedica sua obra a compreender como o capitalismo digital, as redes sociais e a cultura da hiperconectividade alteraram nossa maneira de viver. Em livros como A Sociedade do Cansaço, Psicopolítica, A Sociedade da Transparência e Não-Coisas, Han argumenta que o poder contemporâneo já não depende apenas da repressão.

Hoje, somos incentivados a repetir.

A produzir.
A performar.
A permanecer constantemente visíveis.

Segundo Han, o controle deixou de funcionar principalmente por proibições e passou a operar através da positividade: acreditamos estar escolhendo livremente, quando muitas vezes apenas reproduzimos aquilo que algoritmos, tendências e sistemas digitais recompensam.

A consequência é uma sociedade que celebra a individualidade enquanto produz sujeitos cada vez mais semelhantes.

Todos querem ser únicos.

Mas acabam consumindo as mesmas referências, utilizando a mesma linguagem e reproduzindo os mesmos comportamentos.

Quando VIPERINE afirma que “todos são iguais”, sua crítica ultrapassa pessoas específicas.

Ela questiona um sistema cultural que recompensa previsibilidade em vez de singularidade.

O preço da autenticidade

Essa recusa em se adaptar encontra eco na filosofia de Martin Heidegger (1889–1976), um dos filósofos mais importantes do século XX e autor de Ser e Tempo, obra que transformou profundamente a filosofia existencial.

Heidegger dedicou grande parte de sua produção intelectual a investigar uma pergunta aparentemente simples:

o que significa viver uma vida autêntica?

Para responder a essa questão, desenvolveu o conceito de das Man, geralmente traduzido como “o impessoal”.

Segundo Heidegger, boa parte das pessoas vive guiada por expectativas externas.

Fazemos aquilo que “todo mundo faz”.
Pensamos aquilo que “todo mundo pensa”.
Desejamos aquilo que “todo mundo deseja”.

Essa existência oferece segurança.

Pertencer reduz a angústia de escolher.

Mas também produz um efeito silencioso: aos poucos deixamos de agir por convicção própria e passamos a existir segundo modelos já estabelecidos.

Para Heidegger, viver autenticamente exige enfrentar justamente essa angústia da escolha.

É mais difícil.

Mas é a única maneira de existir como indivíduo.

É nesse ponto que Lost ganha outra camada de significado.

A personagem aceita a solidão, o deslocamento e até a incompreensão como consequências inevitáveis de permanecer fiel à própria identidade.

Estar perdida não significa não saber para onde ir.

Significa recusar caminhos que exigem abrir mão de si mesma.

A dor como matéria-prima

Essa leitura também dialoga diretamente com o conceito artístico construído por VIPERINE.

Sua proposta estética não apresenta a vulnerabilidade como destino, mas como matéria-prima para construção de força. O sofrimento deixa de ocupar o papel de obstáculo e passa a funcionar como elemento de transformação.

O próprio conceito da artista sintetiza essa ideia:

“Ela não te ensina a sentir. Ela te ensina a usar o que você sente para construir um império.”

Essa frase muda completamente a leitura da música.

A dor não é romantizada.

Ela é instrumentalizada.

O sentimento deixa de ser o ponto final da narrativa e se transforma em ferramenta de construção de identidade.

Sob essa perspectiva, Lost deixa de ser apenas um relato sobre inadequação.

Ela se torna uma declaração de independência.
A personagem compreende que permanecer diferente possui um custo.
Mas entende também que a assimilação possui um custo ainda maior: deixar de existir como indivíduo.

Um retrato do presente

Curiosamente, embora pertençam a épocas diferentes, Simmel, Heidegger e Byung-Chul Han discutem a mesma questão por perspectivas complementares.

Simmel investiga a posição social de quem nunca pertence completamente.

Heidegger pergunta o que acontece quando abandonamos nossa autenticidade para viver como “todo mundo”.

Han demonstra como, na era digital, essa pressão pela conformidade deixou de ser explícita e passou a operar de forma quase invisível, através da lógica dos algoritmos, da produtividade e da validação constante.

Lost parece reunir essas três reflexões em uma única narrativa.

A de alguém que prefere carregar o peso do deslocamento a dissolver a própria identidade para conquistar pertencimento.

Talvez seja justamente por isso que a música dialogue tão fortemente com a década de 2020.

Vivemos um período marcado por algoritmos, inteligência artificial, produção massiva de conteúdo e uma cultura que frequentemente recompensa aquilo que pode ser replicado.

Nesse cenário, permanecer diferente se torna mais difícil.

Mas também mais significativo.

No fim, Lost não é uma música sobre estar perdido.

É uma música sobre escolher não desaparecer dentro da multidão.

Editoria Revista Catarse | solenia records | 2026

Também publicado na Substack da Revista Catarse.

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